O Direito Cabe Numa Esfiha - Parte I
Por Francisco Escorsim em Mai 13, 2008 em Blog, Calouro, Dicas, Divagações, Indicações, Realidade
Este post do Carlos me fez pensar no que as coisas teriam sido diferentes, para mim, caso eu também tivesse tido uma experiência determinante para escolher o Direito, na época próxima da inscrição no vestibular.
Mas, não a tive. Minha decisão foi inteiramente pragmática. Era, e ainda é, dentro da área de humanas, o curso que mais possibilidades abrem ao seu final, seja no setor público, onde a quantidade de carreiras destinadas aos formados em Direito é enorme, seja no privado, onde já tinha, na família, um escritório de advocacia onde trabalhar.
Entretanto, experiências como a do Carlos e justificativas como a minha, por mais definitivas que pareçam, não explicam por que, em primeiro lugar, o Direito se tornou uma das opções de escolha. Certamente, antes disso, algo aconteceu para que o Direito tenha adentrado o horizonte de consciência, e de modo significativo, senão, não chamaria atenção a tal ponto.
Por isso, é imprescindível recordar essa experiência, reconhecê-la e procurar compreendê-la. Só assim você saberá por que realmente preferiu o Direito. Melhor, por que ele o escolheu.
Eu, por exemplo, encontrei o Direito numa esfiha (se preferir leia esfirra, ou, ainda, sfiha. O Houaiss diz que tanto faz.).
Eu devia ter por volta dos 14 anos de idade. Era começo da noite de uma quarta-feira qualquer. Jantávamos em casa, eu, meus pais e dois irmãos. Porém, eram seis esfihas (daquelas fechadas, enormes, que dão umas três do Habib’s, por exemplo). Quem ficaria com a última? Eu e meus irmãos comíamos de olho na embalagem.
As regras lá em casa sempre tiveram critério. E isso bastava para torná-las justas, ainda que pudessem ser melhores do que eram. Naquele caso, a praxe era dividirmos a esfiha restante, milimetricamente, em três pedaços. Entretanto, o caçula resolveu dar uma de esperto e, antes de terminar a sua, tascou a mão grande na remanescente.
Imediatamente, eu e meu outro irmão reclamamos, sem muita ênfase, por desnecessária, afinal, confiávamos plenamente na aplicação da lei paterna, para a qual bastava o registro da queixa. Mas, cadê? Não houve nada, nem explicação, senão um muxoxo do tipo: “não faça mais isso”.
Não saberia descrever a indignação que senti. Era de tal intensidade que fiquei profundamente chocado com sua aparente desproporção. “Mas é só uma esfiha…”, pensava, tentando me convencer que a coisa não era tão grave como parecia.
Mas, grave ou não, a verdade é que assim a considerei e, por conta disso, ela se tornou minha imagem fundamental do Direito, o mito modelador do meu entendimento a seu respeito, ou, para usar um termo mais “mudérno”, o paradigma desde o qual o compreendi durante muito tempo.
Ali, o Direito se me apresentou na sua majestosa cegueira, guiado pela vontade humana, mesmo quando absolutamente ausente. Ali, aterrorizado diante da precariedade de toda regra geral, passei a desconfiar de qualquer instituição enraizada nesse solo frágil e semovente da contingência histórica. Ali, deparei-me com a esfinge, indagando mortalmente: “decifra-me ou te devoro”.
E devorado fiquei no ventre do Direito, desde então e por mais 18 anos, no mínimo. Hoje, repleto de feridas e cicatrizes ainda por curar, ando a decifrá-lo, aos trancos e barrancos. Outra não é a razão para disso continuar a tratar no próximo artigo.
Francisco Escorsim é (de)formado em Direito e editor do site “O Náufrago” .
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