Eis Que Me Apresento…

Quando recebi o convite para participar deste blog, imediatamente voltei no tempo quatorze anos atrás, ao meu primeiro dia de aula na faculdade de Direito. Recordei-me entrando apressado no (antigo?) Bloco I, da PUC, campus Curitiba, ansiando encontrar caras conhecidas, mas incapaz de olhar para alguém.

Li demoradamente o ensalamento afixado em um dos muitos murais de aviso espalhados pelo amplo saguão, na esperança que o nervosismo passasse sem que ninguém o percebesse. Como se alguém estivesse prestando atenção em mim… Enfim, atire a primeira pedra quem nunca sofreu da síndrome de se crer protagonista de situações nas quais mal se inclui entre os figurantes.

Hoje, felizmente consciente da minha “desimportânciaâ€, não temo parecer perfeitamente inadequado para falar a estudantes interessados em aprender o Direito. Sim, porque a verdade pura e simples é que fui péssimo aluno. Não lembro uma vírgula do que os professores disseram na faculdade. Também, por que deveria?

Estava estampado nos seus olhares inseguros que não sabiam ensinar absolutamente nada, senão os decorados comentários aos artigos dos Códigos, nos quais se agarravam como crianças nas barras das calças dos pais, quando se vêem diante de estranhos.

Não, desde o primeiro dia de aula percebi a palhaçada que seria meu curso de Direito e fiz uma promessa cumprida integralmente: não iria participar da farsa encenada por professores e alunos, claramente fingidores que ensinavam ou aprendiam.

Ainda assim, como só não se forma na faculdade de Direito (é exagero dizer que é assim em todas?) quem tem sérios problemas mentais, dela saí como bacharel. Passei no tal exame da Ordem e, quase sem querer, lá estava eu, de terno, gravata e a cara incendiada de vergonha por não ter a menor idéia de como deveriam ser discriminadas as verbas trabalhistas acordadas numa audiência qualquer.

Enfim, dizia eu do péssimo aluno que fui. Claro, não é porque seus professores são patéticos e sua faculdade um clube de campo que a responsabilidade por aprender o que quer que seja tenha mudado de mãos. Continua sendo integralmente sua, porque só se aprende aquilo que se quer aprender. Ponto final.

Por isso, um belo dia, eu decidi estudar esse negócio para valer, independente dos interesses financeiros ou concurseiros que movem praticamente todo e qualquer “operador do Direitoâ€. Posso dizer que aprendi o suficiente para, ao menos, reconhecer a realidade do fenômeno do Direito, independente das leis positivadas no momento e dos valores em jogo na tridimensionalidade da sua essência.

É dessas experiências vividas nesse trajeto iniciado no primeiro dia de aula da faculdade que pretendo aqui compartilhar com você, caro estudante de Direito. Porque sei que há por aí quem está na mesma situação em que um dia eu estive, profundamente insatisfeito e frustrado, sem saber bem por quê. Se você é um desses, talvez se interesse pelo que eu tenha a dizer. Se não, também.

Francisco Escorsim é (de)formado em Direito e editor do site “O Náufragoâ€.

4 Comentário(s)

  1. É complicado para um calouro de Direito a certeza de que a responsabilidade de sua formação é totalmente sua. O caminho das pedras é complicado para os mais jovens, vejo-me nessa situação diariamente, é bom saber que não estamos sozinhos e que muitos já conseguiram superar as dificuldades.

    Ariadne Celinne | Mar 25, 2008 | Reply

  2. Olá Ariadne,

    Uma das coisas mais difíceis na faculdade é essa solidão diante de si mesmo. Mas ai daquele que foge dela, porque periga se perder por completo.

    Não sei se me incluo entre os muitos que superaram as dificuldades, mas, pelo menos, não finjo que elas inexistam ou não importam.

    Francisco Escorsim | Mar 26, 2008 | Reply

  3. maravilhoso os pensamentos ,traz uma certa alegria e confiança que não é só eu que estou conflitante com pensamento de achar de que faça esta certo ou não.obrigado

    waldernum paixao e silva | Mar 29, 2008 | Reply

  4. De nada, Waldernum.

    Francisco Escorsim | Abr 1, 2008 | Reply

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  1. Mar 25, 2008: de O Náufrago » Blog » Nova Coluna

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